Crítica de Cada CD
UMA VISÃO CRÍTICA DE CADA ÁLBUM:

The Pipers at the gates of dawn
O cataclismo sensitivo de "Astronomy Domine" abre um álbum iniciático em que se cristaliza a essência do psicodelismo mais avançado. O cérebro de Syd Barrett, levando a batuta na composição, delata as suas pertubações internas em peças como "Interstelarr Overdrive". Tudo está ali, imaginária colorista, terremotos elétricos, fragilidade melódica e densidade emocional ás toneladas. Um clássico.

A saucerful of secrets
Sem Syd Barrett, o aparato sonoro do Floyd, aproxima-se do obsessivo. O progressivo de "Let there be more light"inaugura o nascimento do "rock espacial", o extase através do banho de sensações auditivas. "Set the controls for heart of the sun", dá a nota de intimismo doentio. O irreverente "Jugband Blues" é o testemunho de Barret no seio dos Pink Floyd.

Tonite let’s all make love in London
Banda sonora do filme com o mesmo título. Inclui uma versão definitiva de "Interstellar Overdrive".

More
Pelo fato de ser uma banda sonora não quer dizer que seja uma obra meno. "More" evolui aos tombos por entre as tonalidades acústico-decadentes - "Cirrus minor", a esplêndida "Cymbaline" - imersões a pleno pulmão no planeta dos artificios eletrônicos - "Main Theme"- e rotundas pancadas elétricas.

Ummagumma
Primeira parte: frescos minuciosamente reproduzidos, quatro peças monumentais em valiosas versões em direto. "careful with that axe, eugene"é particularmente valiosa: o seu dramatismo, a sua catarse, o seu sangue..., sentem-se claramente. Segunda parte: mais irregular, Wright é vítima de acessos de desmedida grandiloquência, Walters brilha mais, embora as suas vinhetas caiam as vezes no simplesmente anedótico - sem discutir os seus méritos por aparecer no Guiness pelo título mais longo da história - Gilmour hesita entre a sindrome Steve Howe, e uma corrosão mais agradecida, e Mason arrisca mais do que ninguém embrenhando-se em passadiços um tanto claustrofóbicos. Balanço: vençe a primeira parte.

Zabriskie Point
Banda sonora com três temas do Pink Floyd: "Heart Beat, Pig Meat", "Crumbling Lard" e "Come In Number 51, Your Time is Up".

Atom heart mother
Nascem as regras do som do Pink Floyd para os anos setenta: tendência para a incontenção instrumental, para fazer aumentar os esquemas talvez um pouco mais do aconselhável em determinados momentos. A suite de "Atom heart mother" - que ocupa metade do álbum - coloca o nascente abc do grupo. Apoteótica demonstração de meios, complexidade estrutural e preciosismo em cada um dos seus quarenta minutos. Embora felizmente, o toque de demência continue ali.

Relics
Os primeiros singles do grupo, neste momento é impossível encontrá-los.

Meddle
O delírio cósmico continua a voar muito alto. Há dinheiro para fazer - quase - tudo e o grupo não brilha pela sua autocensura. Peças de música entre o impacto e o simplesmente criativo. Seguindo as coordenadas traçadas em "Atom heart mother" mas com mais vontade de ser acessivel. Atenção á longa 23:31 minutos - "Echoes", majestosa sugestiva recriação ideal para viagnes mais ou menos proibidas. Pink Floyd, á procura da beleza estética.

Obscured by clouds
Delimitando o seu som, concentrando a sua mensagem, o Floyd aproximam-se do modelo que lhes permitirá o seu assalto americano, e "Obscured by clouds" é o seu passo de gigante. A esquizofrenia e a agilidade criativa tendem a ceder o lugar a quadros mais previsiveis e acadêmicos. O causar sensação já é uma arma que o grupo começa a dominar, e os avanços começam a medir-se por milimetros.

The Dark Side of the Moon
O tecnicismo crescente tem em "The Dark Side of Moon" o seu monumento mais irrepreensível. "Money", uma canção mais conseguida e memorizável do que o habitual, quebra o gelo, e o resto supreende o ouvinte com uma imediatez insólita tratando-se de um disco dos Pink Floyd. A conquista do som em todo o seu explendor, graças, em parte, aos estrategemas tecnológicos do engenheiro Alan Parsons. O maior êxito comercial da história do grupo.

Wish you were here
Entre o martelar pétreo de "Shine on you crazy Diamond"e o sussurro inquietante de "Welcome to the machine", os Pink Floyd movimentam son atmosféricos, pretensamente belos e, porque não perfeccionistas. Perdida já a noção das dimensões, Walters e seus pupilos atacam as fibras mais vulneráveis do ouvinte á base de bombardeamentos desproporcionados de som. Um som mais claro, mais limpo e menos nocivo que nunca. Já só resta desmoronar-se e render-se perante a simples contemplação.

Animals
Walters, auto promovido a juiz visionário, qualifica o mundo dividindo-o em três grupos: porcos, cães e cordeiros, que simbolizam o oder econômico, a milícia repressiva e o povo. Por detrás da parábola, despontam formas mais diretas que em "Wish you were here". Menos tensão atmosférica e mais energia - como na estupenda "sheep". Para alguns, o último álbum interessante antes do exagero de "The Wall".

The Wall
Walters queria que "The Wall"fosse a sua obra definitiva, o compêndio final que trazia a luz pública todas as suas guerras internas. A complexidade técnica é levada a um extremo que esmaga literalmente os matizes de que muitos dos temas poderiam Ter beneficiado. O ouvinte, repentinamente diminuido, não tem outra alternativa senão deixar-se arrastar pelo sobre-humano turbilhão de sensações - quase todas negativas - com que Walters nos brinda. Um pesadelo transformado em disco que merece aplausos incondicionais e enormes reveses em partes iguais. Impressionante no vasto sentido do termo.

A Collection of Great Dance Songs
Álbum de grandes êxitos que evita o material dos primeiros álbuns.

The Final Cut
Não fosse a autocrucificação praticada por Walters em "The Wall" Ter deixado o seu público com vontade de mais carne, "The Final Cut" põe o resto. Depressivo e criativamente desenganado, o disco só consegue levantar vôo num ou outro momento. O último instrumento do Pink Floyd ao serviço de Roger Walters.

A Momentary Lapse of Reason
Um regresso que não o é assim tanto, tendo em conta a ausência de Walters, mas os fãs recebem-no bem. Um álbum sóbrio, instrumentalmente brilhante, que retorna habilmente as constantes do clássico som Floyd, mas a insistência - talvez forçada - nos seus infalíveis sinais de identidade não é o suficiente para fazer dele um trabalho precisamente pertubador.

Delicate Sound of Thunder
Filmagens ao vivo correpondentes á macrodigressão mundial de 1987-88. A colheita do álbum anterior, convive com olhadelas retrospectivas tão inevitáveis como "Shine on you crazy diamond". Sem censura técnica possível o Floyd realimentam-se a si mesmos com o seu próprio passado.

The Divison Bell
Gravação impecável, som definitivamente atemporal e onze temas que se sucedem sem alterar o pulso do ouvinte. "What do you want from me" e "Keep Talking" são lajes que caem com o peso de "Shine on you crazy Diamond", embora sem a sua inspiração, "A great Day for Freedom" envolve com a sua mal dissimulada simplicidade, e "High Hopes" talvez pretenda ser o "Echoes" dos anos noventa. O risco ficou na pré-história, o Pink Floyd limitam-se a ser uma máquina formalmente correta.

Pink Floyd - Welcome to the Machine - Revista Portuguesa de 1994

 
       

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